Olha-se para a agenda oficial das comemorações dos 50 anos da Autonomia Constitucional dos Açores e fica uma sensação difícil de disfarçar: estamos a celebrar uma conquista sem a sua origem. Se o programa, no geral, roça a “miséria franciscana”, o facto de o 25 de abril estar ausente da agenda apenas adensa a ideia de que estamos perante um programa sem brilho e sem densidade. Em pleno mês de Abril, o 25 de Abril desaparece da agenda, como se fosse um detalhe incómodo numa narrativa que há quem queira mais “limpa” e numa clara cedência à retórica da extrema-direita do partido do C, liderado pelo pastor Ventura e pelo acólito cá do burgo.
A Autonomia não nasceu por geração espontânea, nem foi um ato administrativo isolado. É filha direta de um momento de rutura, de uma revolução que abriu portas onde antes só havia muros. Ignorar isso não é apenas uma falha simbólica. É um empobrecimento deliberado da memória coletiva. E talvez por isso tudo comece logo mal.
A conferência que abriu estas comemorações, sobre a qual já tive oportunidade de escrever e que mais parecia um comício do PPD pago com dinheiro público, foi menos um momento de reflexão plural e mais um exercício de alinhamento partidário, de bajulação ao mota-amaralismo. Num ciclo que se queria institucional e agregador, optou-se por um registo que dividiu, empobreceu o debate e lançou um sinal preocupante sobre o que se seguiria.
Se o ponto de partida foi este, dificilmente o resto surpreende. Mas apagar o 25 de Abril da agenda é que “não lembra ao mais crente”.
O programa que se segue não ofende, mas também não eleva. Cumpre calendário, ocupa agenda e preenche espaços. Falta-lhe densidade, ambição e, sobretudo, coragem histórica. Porque celebrar 50 anos de Autonomia exigia mais do que uma sucessão de eventos protocolares, dignos de um “chá das cinco da turma da Matriz”. Exigia, sim, um discurso claro sobre o que fomos, o que somos e o que queremos ser.
E isso implica, inevitavelmente, falar de Abril. Não como nota de rodapé, não como formalidade, mas como o momento fundador que tornou tudo o resto possível.
Ao optar por uma agenda que contorna essa evidência, a Região (Governo e Assembleia) não está apenas a falhar na celebração, está a fragilizar a própria compreensão da Autonomia. E uma Autonomia que se esquece da sua origem é uma Autonomia mais vulnerável, mais fácil de reduzir, mais simples de desvalorizar.
No meio disto fica a pergunta: Estamos a celebrar 50 anos de Autonomia ou a reescrever, em silêncio, a forma como lá chegámos? Numa espécie de tentativa de “alaranjar o processo autonómico”?
Por fim, fica uma nota de registo para a forma como a Câmara de Angra do Heroísmo está a liderar um ciclo de debates sobre a nossa essência política. De valor! Do Torreão, a preocupação sobre o estado de tudo isto começa a ser muito grande. Isto não vai no bom caminho e as velas negras estão no horizonte.